Indústria decepciona, cresce abaixo do previsto e frustra a reação no ano
05/12/2018

Valor Econômico
O último trimestre do ano não começou bem para a indústria, segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Depois de três meses em queda, a produção cresceu apenas 0,2% em outubro sobre setembro, feito o ajuste sazonal. Uma alta bem mais tímida que a média das projeções de analistas, de 1,2% para o período. Em setembro, já havia caído (-1,8%) bem mais que o esperado. A atividade do setor ainda
recuou em julho (-0,2%) e agosto (-0,7%).

A indústria não conseguiu engatar uma recuperação desde o fim da greve dos caminhoneiros, em maio, que antecedeu um período de maior incerteza eleitoral e de queda nas exportações para a Argentina. O volume de produção de outubro ainda estava 2% abaixo daquele registrado em abril. A confiança do setor, que até agora não deu mostras de melhora efetiva também tem mantido a atividade em baixa, segundo analistas.

Para o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), os dados indicam que a indústria pode estar migrando de uma etapa de recuperação para outra de baixo crescimento. "Devido aos efeitos encadeadores que guarda entre seus próprios segmentos e com o restante das atividades econômicas, essa perda de dinamismo impõe restrições ao avanço do PIB, que não vai muito além de 1%", disse a instituição em nota.

Em outubro, a queda de 0,3% na produção de bens intermediários em relação a setembro baixou o resultado geral. Foi o terceiro recuo seguido nessa categoria, que abrange 60% do total. Paradas programadas em plataformas de petróleo, paralisação de unidades de celulose, incêndio na refinaria Replan, da Petrobras, e queda na produção de açúcar ajudam a explicar a sequência negativa nos intermediários. André Macedo, gerente da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), do IBGE, diz que são eventos que não devem se repetir, mas ajudam a compor a história da perda de ritmo nos últimos meses.

A queda nas exportações de veículos para o mercado argentino é apontada por Luana Miranda, pesquisadora da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileira da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), como determinante do fraco desempenho da produção nacional. "O setor externo é o principal fator
negativo na indústria", diz.

De janeiro a outubro, os embarques de automóveis de passeio caíram 17% e os de veículos pesados recuaram 17,8%, para todos os mercados, segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). As exportações totais de manufaturados subiram 6,7% no acumulado do ano, metade da alta de 12,1% no mesmo período de 2017.

Os resultados mensais da produção indústria têm sido erráticos, mas o setor segue no caminho de uma retomada lenta, assim como a economia no geral,
afirma Mauricio Oreng, economista-chefe do Rabobank. "Os dados são muito voláteis e é preciso cuidado ao analisar esses movimentos erráticos. A indústria continua dentro de um contexto de recuperação gradual da economia. Vai demorar um pouco para o PIB chegar a um crescimento de 3%", pondera ele, que vê um quarto trimestre mais fraco. A estimativa do Rabobank para o produto é de aumento de 0,3% de outubro a dezembro, após a alta de 0,8% no trimestre anterior, feito o ajuste sazonal.

Mantido em novembro e dezembro o nível alcançado em outubro, a produção industrial terminaria o quarto trimestre do ano com queda de 1,2%, sobre o terceiro, feito o ajuste sazonal, segundo o Goldman Sachs. Para o ano, o carregamento estatístico é de modesto 1%. "A produção está no mesmo nível
de setembro de 2004", nota o economista Alberto Ramos.

Vários analistas destacaram que, enquanto outros setores recuperaram a confiança no pós-greve e eleição, a da indústria continua a ratear. Na sondagem de novembro feita pela FGV, o indicador que mede expectativa de produção caiu pelo quarto mês, acumulando perda de 21% no período. Enquanto isso, em 12 meses, a produção saiu do pico recente de alta de 3,2% em junho para 2,3% em outubro. A falta de reação da confiança é algo que preocupa, diz Rodrigo Nishida, da LCA Consultores. "Isso pode estar relacionado a preocupações sobre a política econômica do próximo governo", afirma. As seguidas decepções com os resultados mensais devem fazer a LCA rever a estimativa da produção no ano, atualmente de alta de 2,1%, para abaixo de 2%. No início de 2018, a expectativa era de um avanço mais próximo de 4%.

Para novembro, os poucos indicadores disponíveis apontam estabilidade em relação a outubro e queda de 0,9% sobre o mesmo período do ano passado,
afirma Nishida. O Itaú Unibanco prevê crescimento de 0,6% em novembro, sobre outubro.

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