Economia vai acelerar e crescer 3% em 2019, estima Credit Suisse
05/12/2018

Valor Econômico
O ritmo de crescimento da economia brasileira deverá ter uma aceleração considerável daqui para frente, passando de 1,4% neste ano para 3% no ano quem vem, num quadro marcado pela melhora do crédito e do mercado de trabalho, avalia o Credit Suisse. Para o economistachefe do banco, Leonardo Fonseca, o investimento terá expansão de quase dois dígitos em 2019 e o consumo das famílias ganhará fôlego, avançando um pouco menos de 3%.

Na visão de Fonseca, o governo de Jair Bolsonaro (PSL) tem dado mostras convincentes de que dará prioridade à agenda de reformas fiscais e de aumento da produtividade. Além disso, deverá conseguir aprovar medidas nessa direção no Congresso, segundo ele. Com isso, as condições financeiras devem ficar num nível favorável à expansão da atividade, diz Fonseca, que acredita numa recuperação mais significativa da confiança de empresários e consumidores no ano que vem.

Ao falar das perspectivas do Credit Suisse para os próximos dois anos, Fonseca diz que o cenário leva em conta o diagnóstico de que o Brasil tem dois grandes problemas, "um de natureza fiscal e um de baixo crescimento". A análise do banco avalia a disposição e a capacidade do novo governo de adotar uma agenda para enfrentá-los. Para Fonseca, Bolsonaro deu sinais de que seu governo caminhará nessa direção, tanto pela importância que atribuiu durante a campanha ao futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, quanto pela carta branca que deu ao assessor para montar a equipe econômica.

E Fonseca acredita que Bolsonaro terá condições de aprovar no Congresso emendas constitucionais, como uma reforma da Previdência e a desvinculação dos benefícios previdenciários do salário mínimo. Segundo ele, houve um aumento da fatia de deputados e senadores de direita entre os eleitos, a cláusula de barreira pode elevar o número de parlamentares do partido de Bolsonaro e presidentes em geral conseguem emplacar mais
mudanças constitucionais no primeiro ano de mandato.

Nesse ambiente, as variáveis que moldam as condições financeiras - como juros futuros, câmbio, mercado acionário e risco-país - deverão ficar em níveis que estimulem o crescimento. Em 2018, a greve dos caminhoneiros e as incertezas em relação às eleições afetaram esses indicadores, impedindo uma recuperação mais forte da economia.

Fonseca reduziu a estimativa de expansão do PIB deste ano de 1,8% para 1,4%, mas elevou a projeção do ano que vem de 2,3% para 3%, acima do consenso de mercado, de 2,53%. O que torna a avaliação mais favorável, com expectativas mais benignas para o crescimento e para a inflação "é justamente a leitura em relação à capacidade do novo governo de entregar todas essas medidas", afirma ele, referindo-se à agenda de reformas fiscais e de estímulo à produtividade. O cenário macroeconômico também é positivo para o novo governo, dada a combinação de "inflação baixa, volta do crescimento e a queda do desemprego", diz.

Nas projeções do Credit Suisse, chama a atenção a estimativa de uma alta de 9,3% do investimento no ano que vem, uma aceleração expressiva em relação aos 5% esperados para este ano. A melhora da confiança deve aumentar a disposição dos empresários em investir mais, havendo também a perspectiva de avanço do programa de privatizações e concessões ao setor privado, afirma o economista, que fará hoje a tradicional apresentação de fim de ano das projeções do banco para os clientes.

A retomada cíclica da economia também vai se amparar num quadro mais positivo para o consumo das famílias, que responde por quase dois terços do PIB pelo lado da demanda. Para Fonseca, o consumo das famílias crescerá 2% neste ano e 2,9% no ano que vem, contribuindo de modo importante para a aceleração da atividade, dado o peso na economia.

Fonseca aponta dois principais "vetores" que serão fundamentais para a retomada cíclica. O primeiro é o mercado de crédito, que se contraiu muito nos anos de crise e agora tem perspectivas bem melhores. Empresas e famílias estão menos endividadas, a inadimplência tanto de consumidores quanto das pessoas jurídicas está muito baixa e os juros estão num nível que estimula a atividade.

O outro é o mercado de trabalho, que tem se recuperado lentamente, com o desemprego em nível ainda muito elevado e a criação de vagas concentrada no setor informal. Na visão de Fonseca, a desocupação seguirá em baixa, a geração de vagas formais vai ganhar espaço e haverá um crescimento mais forte da massa salarial real (descontada a inflação).

Com a perspectiva de avanço das reformas e a ociosidade elevada na economia, Fonseca acredita que o BC poderá manter a Selic em 6,5% ao ano até o terceiro trimestre de 2019, passando a aumentar os juros a partir de setembro, já de olho na inflação de 2020. Para ele, a taxa vai terminar 2019 em 8% e o ano seguinte em 9%. As projeções para a inflação são benignas: o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deverá ficar em 3,7% em 2018 e em 4,2% em 2019. Num cenário de Selic um pouco mais alta, o crescimento de 2020 deve desacelerar em relação aos 3% de 2019, para 2,5%.

Já os números fiscais devem melhorar aos poucos. Segundo Fonseca, o resultado primário (que exclui gastos com juros) deve encolher de 1,7% do PIB neste ano para 1% do PIB no ano que vem, em parte influenciado pelo aumento esperado de receitas com o leilão das áreas da cessão onerosa feita à Petrobras. A dívida bruta seguirá em alta, mas menos acentuada. Nas contas de Fonseca, passará de 76,3% do PIB neste ano para 76,9% em 2019 e 78,2% do PIB em 2020.

Ao tratar do cenário externo, Fonseca diz que o Credit Suisse trabalha com uma desaceleração gradual da economia global, com os EUA crescendo 2,9% neste ano e 2,7% no ano que vem, e a China, 6,6% em 2018 e 6,2% em 2019. Os juros nos EUA devem ter duas altas em 2019, acredita Fonseca. A situação dos emergentes não lhe parece das mais animadoras. A Turquia já adotou uma política econômica mais heterodoxa neste ano, e o mesmo deve ocorrer com o México no ano que vem, diz ele, lembrando ainda das dificuldades da Argentina, que terá eleições presidenciais. Já o Brasil vai no caminho oposto, com a adoção de medidas para melhorar a situação fiscal e uma agenda de
crescimento, segundo Fonseca. Com isso, o Brasil pode se tornar uma "grande história" entre os emergentes, melhorando em termos relativos na comparação com outros países desse grupo de economias, avalia ele.

Com a perspectiva de aceleração da economia em 2019, o déficit em conta corrente deverá dobrar, mas o aumento não é preocupante. O rombo nas transações de bens, serviços e rendas do país com o exterior deve sair de 0,6% do PIB neste ano para 1,2% do PIB no que vem, um nível ainda baixo.

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