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Da barra à armadura pronta
31/01/2007 | Construção Mercado nº 66

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Setor que detém os maiores índices de conformidade trabalha agora para vender aço com serviço agregado por meio de empresas de corte e dobra. 

Passo seguinte pode ser o mesmo da Europa: Uso de armaduras prontas e de telas soldadas



Por Kelly Carvalho

A racionalização do uso do aço nas obras e um processo sem volta. A intenção da indústria de trocar a venda de aço simples por produtos com valor agregado confir¬ma-se com a disseminação das centrais de corte e dobra. Todos os grandes fornecedores oferecem o serviço, cada vez mais customizado e próximo da necessidade das construtoras, que ganham com a re¬dução de perdas e aumento da produtividade das obras. A oferta já chega a construtoras de todos os portes, a distâncias relativamente competitivas. Junto com o aço cortado e dobrado, cresce também a aceitação das telas soldadas e treliças para painéis pré-moldados.

De acordo com informações do IBS (Instituto Brasileiro de Siderurgia), nos países desenvolvi¬dos, em que o uso de armações industrializadas écompletamente difundido, já se discutem temas re¬lativos ao desempenho das telas, tais como o au¬mento da resistência ao escoamento. Nos Estados Unidos já se desenvolvem aplicações iniciais de vergalhões de 700 MPa de resistência, ductilidade especial para sismos, proteções das mais diversas, como galvanização, pintura epóxi ou mista. Cresce também o uso de vergalhões de aço inoxi¬dável, que deve ganhar espaço no Brasil nos pró¬ximos anos e tem no Museu Iberê Camargo, obra recém-inaugurada à beira do rio Guaíba, em Porto Alegre, aplicação de destaque.

Classificação
Os vergalhões para concreto armado classificam-se como barras, quando obtidas exclusivamente por laminação a quente, e como fios os obtidos por trefilação ou laminação a frio.

A norma NBR 7480 especifica três categorias de aço: CA-25, CA-50 e CA-60. Os vergalhões em barras (CA-25 e CA-50) são utilizados como matéria-prima para fabricação das armaduras empregadas na construção em concreto armado. Os fios de aço (CA-60) são utilizados na fabricação de telas eletrossoldadas, armações treliçadas e estribos, tam¬bém destinados à construção civil.

O que determina a classe de um vergalhão são suas características mecânicas, como resistência à tração e ao escoamento. A barra deve suportar cargas e sobrecargas até os limites determinados sem defor¬mar-se permanentemente. Os ensaios necessários são os de tração - determinação das propriedades mecânicas, como limite de escoamento, limite de re¬sistência e alongamento - ensaios fisicos - determinação da massa linear e dimensões das nervuras - e ensaios de dobramento.

Desde 1999 os vergalhões para concreto armado estão sujeitos à avaliação compulsória de conformi¬dade pelo Irunetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial), a partir da ve¬rificação de resultados de ensaios, de garantia de ma¬nutenção dos resultados e do próprio sistema de qua¬lidade do produtor. A certificação contribuiu principalmente para o pequeno construtor, que reduziu seus custos com a realização de ensaios laboratoriais no aço, simplificando o processo de recebimento e ava¬liação da qualidade dos vergalhões. Para verificar se o material recebido na obra é certificado é necessário observar se a etiqueta possui o logotipo do Inrnetro e do órgão certificador.

Além disso, a NBR 7480 prescreve que toda barra nervurada (barras de aço CA-50), em todas as bitolas, apresente marcas de laminação em relevo, identifi¬cando o produtor com o registro no INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), identificação do produtor e categoria do material e seu respectivo diâ¬metro nominal. "Recomendo ainda que sejam especi¬ficados os níveis de desbitolamento aceitáveis pela construtora", acrescenta o engenheiro e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Luís Otávio Cocito de Araújo.

Especificação
Algumas falhas de especificação podem acarretar o mau desempenho do produto, como a subespecificação (uso de áreas de aço menor que o necessário). Além disso, "a operação de dobramento das barras requer uma atenção especial, em função da preocupação em se respeitarem as características do aço empregado, impe­dindo que ocorram fissurações na parte tracionada", diz Araújo. "Daí a necessidade de considerarem, na opera­ção de dobramento, as prescrições da NBR 6118, que estabelece o diâmetro correto do pino de dobramento usado nas bancadas de dobra, que variam em função do diâmetro e da classe do aço", acrescenta.

 

Check-list
. Siga as prescrições da NBR 7480:1996 para a correta especificação do aço
. Compre vergalhões de fornecedores que possuam marca de conformidade
. Contemple quais serão os níveis de desbitolamento aceitáveis pela construtora em contrato com os fornecedores
. Passe ao projetista estrutural a informação de que o aço será beneficiado no canteiro de obras, de maneira que ele possa adequar melhor o projeto a essa prática
. Priorize o uso de equipamentos eletro-hidráulicos, principalmente em se tratando do dobramento das barras

( Fonte: Luis Otávio Cocito de Araújo, professor-adjunto do Departamento de construção Civil da Escola Politécnica da UFRJ)

NORMAS TÉCNICAS
NBR 6118:2003 - Projeto de estrutura de concreto - Procedimento
NBR 7480:1996 - Barras e fios de aço destinados a armaduras para concreto armado - Especificação NBR 7481:1990 - Tela de aço soldada -Armadura para concreto - Especificação
NBR 7482:1991 - Fios de aço para concreto protendido - Especificação
NBR 7483:1991 - Cordoalhas de aço para concreto protendido – Especificação

(Fonte: Luís Otávio Cocito de Araújo, professor-adjunto do Departamento de construção Civil da Escola Politécnica da UFRJ)

Requisitos de qualidade
. Propriedades mecânicas: tensâo de escoamento, alongamento, relação entre tensão de ruptura e tensão de escoamento, aderência.
. Garantia de rastreabilidade: na barra, identificação do produtor, da classe do aço e da bitola gravados na barra em alto relevo; na etiqueta, marca do produtor, identificação da unidade . produtora, marca do inmetro e do organismo certificador, número da corrida ou lote, identificação da classe do aço e da bitola.
. Qualidade do produto: comprimento uniforme sem presença de barras curtas, regularidade da configuração geométrica, retilineidade das barras, nível baixo de oxidação.
. Na embalagem: amarras firmes e sem folgas, presença de etiqueta.

( Fonte: IBS - Instituto Brasileiro de Siderurgia)

MESA-REDONDA

O ministro Guido Mantega anunciou um pacote de R$ 15 bilhões para habitação de cunho social e mais uma série de medidas com renúncia fiscal ou isenção fiscal de tributos. O setor espera um horizonte de aquecimento e aumento da demanda. A indústria está preparada para produzir nesse volume e quais poderão ser as conseqüências no mercado interno com relação ao preço?
VINíCIUS RODRIGUES MORAIS JÚNIOR - As perspectivas são muito boas no segmento imobiliário e não tão boas em obras de infra-estrutura. Com relação ao abastecimento de aço, já tivemos anos recentes melhores, situações em que as demandas eram maiores e o mercado ficou abastecido, como em 2002, que foi um ano muito bom e não sei se vai se repetir.

Com relação ao preço, o construtor pode ficar tranqüilo? Qual é o cenário?
MORAIS - Desde outubro de 2004 não se fala em aumento do preço do aço. Segundo o SindusCon, mesmo com demanda crescente pelo produto, há uma queda com relação a janeiro de 2005 da ordem de 8 a 9%.

De acordo com alguns calculistas, após a revisão da NBR 6118, as taxas de consumo de aço nas obras aumentaram. vocês, construtores, sentiram isso? Houve um aumento das taxas de armadura?
JOSÉ ANTONIO ARAÚJO - A taxa de armadura de pilares para prédios altos diminuiu, então, houve uma economia em prédios altos. O consumo por metro quadrado se estabeleceu. Mas com relação ao custo do insumo em prédio, não vi o preço do aço baixar como foi dito. Houve um salto da participação do aço como insumo que era de 5 a 6% numa obra residencial para 9%. Hoje o aço representa o maior custo nas nossas obras. Temos obras residenciais de 20 a 25 pavimentos e sentimos esse peso.
FRANCISCO PAULO DE SEBE FILlPPO - Percebi de forma diferente. O consumo de aço aumentou principalmente nos pilares-parede. Já nos pilares mais quadrados isso não ocorreu. Notei também o aumento dos recobrimentos e eventualmente quando se tem o aço mais para dentro, talvez um pequeno aumento de consumo em vigas e em lajes.

A alternativa do corte e dobra já está consolidada?
FILLIPO - O sistema de corte e dobra é vantajoso para obra desde que seja bem empregado. Tem de ser montado como o programado. Em termos de racionalização é perfeito. Representa economia de 2 a 3% no cômputo geral do aço.
ARAÚJO - Até para logística é interessante. Trabalhamos com canteiros bastante apertados e não se consegue estocar aço para manuseá-lo e depois erguer a obra. Então, basicamente, o aço chega e vai direto para a laje. E a qualidade que o nosso fornecedor oferece é muito boa. Há planejamento de uma semana e chega tudo em ordem. Vez ou outra é bom sempre ter alguma barra, mas de forma geral não temos problemas.
JOSÉ LUIZANDRADE - Não há mais retorno, a tendência é de corte e dobra. Não conhecemos nenhuma construtora que tenha usado aço cortado e dobrado e depois tenha retomado para trabalhar com o sistema tradicional.

Há espaço para esse sistema evoluir ou já está consolidado da maneira que é? Dá para oferecer produtos e linhas ainda mais diferenciados?
MORAIS - O conceito tem de ser entendido de maneira mais abrangente, com relação à industrialização da produção da armadura. Especificamente com relação ao corte e dobra de vergalhões, o que se tem no Brasil hoje é equiparado ao que existe de mais moderno no mundo em tecnologia, máquinas e equipamentos.
ANDRADE - As instalações brasileiras são as melhores em termos de limpeza, organização, controle, separação de material e utilização de pontas. Os técnicos desse mercado têm um cuidado muito maior com a dobra do material e verificação posterior do que se vê na Europa, por exemplo.
MORAIS - O que se observa muito, principalmente onde há custo de mão-de-obra elevado, é que além de corte e dobra há um uso intensivo, por exemplo, de armaduras soldadas, como telas soldadas dobradas em diferentes formatos. Há empresas especializadas em customizar armaduras a partir de telas soldadas. Esse sem dúvida é um caminho. Esse conceito, mais amplo que o de corte e dobra, é o de industrializar a armadura.

Como o construtor pode contar com esses serviços diferenciados?
MORAIS - Há empresas que ganham a planta e identificam qual a melhor solução, que pode ser esse serviço diferenciado.
ARILDO BATISTA - A empresa vai oferecer uma gama de soluções, que pode incluir uso de tela, treliça ou aquilo que melhor se adapta ao perfil da construtora e da obra.

Qual a outra tendência de serviço?
BATISTA - Na Europa é entregar armaduras prontas, não simplesmente cortado e dobrado. Para se fazer isso, é preciso ter uma estação de corte e dobra e vergalhão soldado em rolo, porque se pode ter um controle da soldagem. Em vez de entregar o material cortado e dobrado, entrega-se a armadura já pronta. No Brasil já se fabrica e acredito que em breve a venda de armadura soldada será amplamente disseminada.
ANDRADE - Esse é um diferencial entre o Brasil e a Europa. Lá muita coisa é entregue já armada, é um diferencial que teremos de galgar.

O fornecedor em geral apresenta opções à compra de vergalhão?
ARAÚJO - Tivemos uma experiência em que fizemos um prédio alto com muitas repetições de laje. Então utilizamos a tela soldada com armação de laje já pronta. Mas isso só aconteceu porque conseguimos uma negociação comercial razoável com o fornecedor e uma negociação parcial com nosso empreiteiro de armação, já que tínhamos a grua na obra.

A racionalização e os equipamentos da obra também definem como será a compra do aço?
ARAÚJO - A grua é um fator fundamental hoje para tentarmos industrializar mais as nossas obras, mas é muito caro. A gente acha bonito, racional, uma série de coisas, mas não fecha o número. Tivemos condição nessa obra porque trabalhamos com nosso empreiteiro um percentual 4% maior em relação às barras, mas ganhamos quase 20 dias no prazo. Esse é o caminho, mas depende do equipamento.

Qual é o índice de não-conformidade do aço?
MORAIS - Temos um dado de que a não-conformidade está na casa dos 3% mas acho que deve ser menor.

Isso é significativo?
ANDRADE - Não é significativo para construtoras, estamos falando na autoconstrução.
MORAIS - Essa segurança em relação ao aço nasceu da certificação. As siderúrgicas tiveram de certificar nos mesmos moldes das que existem no mundo inteiro e que garantiu ao consumidor a conformidade com a norma brasileira. Isso se faz por meio de auditorias periódicas de órgãos certificadores e ensaios de materiais coletados na usina e no comércio. Ganha-¬se a possibilidade de usar a marca do Inmetro porque dificilmente
alguém ensaia aço.

Em que situações o construtor é obrigado ou recomendado a ensaiar aço?
BATISTA - Órgãos oficiais, em geral, requisitam e muitas vezes exigem o processo.
MORAIS - Mas a rigor, com o programa setorial de qualidade há auditoria e ensaios periódicos, então poucos fazem ensaio.

O que dá para evoluir em termos de vergalhão? O que a indústria pode oferecer?
VALDIR SILVA DA CRUZ - As empresas poderiam oferecer barras com comprimento maior, porque hoje,trabalhamos com vãos de 14 m em concreto armado,
MORAIS - Não é raro construtores pedirem comprimentos diferenciados para atender alguma obra.
BATISTA - Mas no corte é mais comum ainda, com barras de 12 ou 16 m.

Isso tem custo maior?
MORAIS - Não é material de prateleira, tem de ser solicitado e vai depender do lote e da programação de produção, porque o maior incômodo é o transporte, que acaba encarecendo. É preciso solicitar essa conta.

Para finalizar, o que vocês destacariam no setor?
BATISTA - A questão da revisão de norma. Estamos há dez anos com uma norma que precisava ser revisada. Isso transforma a construção civil.
FABIO DE ASSIS LACK - Já identificamos, com a revisão da NBR 7480, que precisamos fazer uma norma de fadiga para os nossos vergalhões. É preciso que comecemos a trabalhar em como deveriam ser as características que o vergalhão tem de ter quando submetido
a situações cíclicas.
CRUZ - A qualidade do vergalhão melhorou muito. Agora é hora de sentarmos junto com os projetistas e ver o que custa para um e para outro e tentarmos sair com um projeto otimizado. Quanto às normas, em geral têm sido muito democráticas e estão atendendo aos produtores, consumidores e projetistas.
ORIVAN CASSIO MATIUZZO - O cenário é bastante positivo daqui para frente, porque temos normas democratizadas, o melhor vergalhão do mundo e os grandes players interessados em se aproximar dos projetistas.

 

ENTREVISTA


Luís OTÁVIO COCITO DE ARAÚJO - professor-adjunto do Departamento de Construção Civil da Escola Politécnica da UFRJ, autor da tese de doutorado "Método para a Proposição de Diretrizes para a Melhoria da Produtividade da Mão-de-obra na Produção de Armaduras

Obra otimizada

Como o construtor pode reduzir ou eliminar as perdas de aço nas obras?
As perdas podem ser explicadas basicamente por duas razões: a compra de vergalhões com desvios de bitola e as sobras geradas por corte. A obra compra em massa (toneladas) o aço em vergalhões e o usa em metros. Uma tonelada de vergalhões com desbitolamento médio de 8% perfaz uma quantidade, em metros, inferior à mesma 1 t com vergalhões com 0% de desbitolamento médio. É preciso, nesse caso, que a obra controle o recebimento do aço, pesando e contando o número de barras recebidas, por exemplo. Fazendo isso com certa regularidade, poderá constatar os níveis de desbitolamento dos vergalhões e ter argumentos para negociar com o fornecedor. Vale lembrar que a NBR 7480:1996 apresenta as faixas de desbitolamento toleráveis. Outra parcela das perdas pode ser explicada pelas sobras de aço. Ações para minimizar tal problema passam por projetos de detalhamento que considerem o corte de aço no canteiro e que tragam soluções orientadas a essa postura como, por exemplo, o uso de armaduras duplas (vencem dois pavimentos). Um plano de corte melhor elaborado e o armazenamento correto das pontas (separação por diâmetros e tamanhos) são ações que também irão colaborar para a redução das perdas.

Como obter ganhos de produtividade das armaduras?
A produção de armaduras deve ser tratada de maneira analítica. São várias as operações que a compõem: recebimento, estocagem, corte, dobra, pré-montagem e montagem. Para que se melhore a produtividade do processo é preciso tratar cada operação de maneira especial. Em se tratando das operações de recebimento e estocagem do aço nas baias, há maneiras de otimizá-Ias, reduzindo o tempo e mão-de-obra e equipamentos envolvidos como, por exemplo, planejar o canteiro de maneira que a carreta que transporta os vergalhões se aproxime ao máximo da baia de estocagem, orientar o fornecedor que ao "montar a carga" o faça de maneira que favoreça o descarregamento, providenciando pontaletes entre feixes, favorecendo com isso o descarregamento. Nas operações de corte e dobra, o uso de máquinas eletro-hidráulicas incrementa substancialmente a produtividade

Como deve ser o controle do aço na obra?
As construtoras devem efetuar a pesagem do aço para se certificarem de que receberam a quantidade efetivamente paga. Mais que isso, como já comentado anteriormente, devem checar o desbitolamento dos vergalhões. É importante também que se monitore o consumo do aço periodicamente e cruze tal informação com as quantidades apontadas nos projetos de detalhamento trabalhados naquele mesmo período. Deve-se fazer, também, um levantamento preciso das armaduras de montagem, geralmente não prevista nos projetos.

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